Livro · Os Lusiadas
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Autor: Luis de Camoes
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65 "Se os antigos delitos, que a malícia Humana cometeu na prisca
idade, Não causaram que o vaso da niquícia, Açoute tão cruel da
Cristandade, Viera pôr perpétua inimicícia Na geração de Adão,
coa falsidade, Ó poderoso Rei da torpe seita, Não conceberas tu
tão má suspeita.
66 "Mas porque nenhum grande bem se alcança Sem grandes
opressões, e em todo o feito Segue o temor os passos da
esperança, Que em suor vive sempre de seu peito, Me mostras tu
tão pouca confiança Desta minha verdade, sem respeito Das razões
em contrário que acharias Se não cresses a quem não crer devias.
67 "Porque, se eu de rapinas só vivesse, Undívago, ou da pátria
desterrado, Como crês que tão longe me viesse Buscar assento
incógnito e apartado? Por que esperanças, ou por que interesse
Viria experimentando o mar irado, Os Antarcticos frios, e os
ardores Que sofrem do Carneiro os moradores?
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